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Victor Athayde fala sobre as consequências do transporte de madeira nativa sem o Documento de Origem Florestal para o Jornal A Tribuna


Matéria completa do Jornal A Tribuna em 19.07.2020


Fortuna perdida no fundo dos rios do Espírito Santo

Com o transporterústico de madeiras de lei feito no século XX, toras foram perdidas nos rios e até hoje são encontradas 

Parte da história do ciclo damadeira no Brasil continua sendo contada pelos rios capixabas. Toras de madeira de lei encontradas recentemente sinalizam uma fortuna perdida no leito dos rios do Espírito Santo. 

Um exemplo é uma tora de peroba do campo descoberta em outubro do ano passado no cais do rioCricaré, em Conceição da Barra, próximo ao mercado municipal, onde, no passado, o rio espraiava. 

O escritor Salomão da Silva Pinto contou que na década de 1940,havia em São Mateus a serraria de Eleosippo Cunha, que exportava madeiras para o Rio de Janeiro. 

"O transporte de São Mateus a Conceição da Barra era feito através do rio Cricaré: uniam-se 10 toras, atadas por um arame, formando uma balsa e, em cima delas, ia o condutor, utilizando uma vara comprida para impulsioná-la". 

Da serraria a Conceição da Barraera um percurso de cerca de 15 dias de navegação, até a boca do rio de Santana. Lá, o condutor amarrava a balsa à beira de um manguezal, e uma pessoa fazia a vigilância da madeira.

"De acordo com a demanda, soltava-se a quantidade de toras quedeveriam ser transportadas. Elas boiavam, seguindo a corrente marítima em direção aos navios ancorados no leito do rio", revelou. 

Ele detalhou que as toras eramerguidas da água por guindastes e armazenadas nos navios. 

Nesse percurso da balsa, acontecia de a força da maré desatar as toras e elas serem levadas pela correnteza. Elas eram marcadas com placas e, se alguém encontrasse e devolvesse, recebia uma recompensa.

"Nem todas foram encontradas.Algumas ficaram perdidas, soterradas nas praias ou à beira do rio Cricaré e depois de décadas ainda estão sendo encontradas!". 

O escritor e especialista em história Adilson Vilaça explicou quetambém houve um tempo em que "colocavam as toras no leito do rio e os manejadores iam se equilibrando em cima delas. Os troncos rolavam e eles pulavam para outro". 

Ele destacou que o transporte fluvial também se deu pelos rios Itaúnas, Doce e Santa Maria. Entre as madeiras transportadas estão jacarandá, peroba, imbuia, macanaíba, cerejeira, cedro e jequitibá. 

De acordo com o instrutor do curso de Marcenaria do Senai Linhares, Rubercir Braz de Melo, as madeiras de lei são mais resistentes e de alto valor agregado. 

"Essas madeiras submersas, vão ter a casca e a parte branca, que fica envolta da tora, estragadas. Mas o cerne, que é a parte principal comercialmente falando, permanece intacto".

Mas por que a madeira não estraga, quando submersa? 

A madeira de lei na água afunda com o tempo, seu processo de absorção é mais demorado, porque ela é mais densa, segundo a engenheira industrial madeireira Thais Marcchiori. "Quando submersa, a madeira absorve a água e com isso aumenta sua densidade, ficando ainda mais pesada. Com a densidade maior que a da água, afunda". 

O engenheiro Paulo Cesar Casate, 67, aprendeu sobre o assunto com seu pai, que sempre trabalhou na área. E, depois de aposentado, se enveredou pelo segmento. Ele garantiu que mesmo após anos subersa, a madeira lei continua "perfeitinha". Mas por quê? 

O engenheiro florestal e professor de química da madeira da Universidade Federal do Paraná (UFPR), doutor Umberto Klock, esclareceu. Segundo ele, na natureza existe uma variedade de fungos especializados na degradação das substâncias que compõe as paredes celulares da madeira. 

"Para que os esporos desses fungos germinem e estes se desenvolvam, é necessário uma faixa de temperatura variável, de forma geral de 15 a 35ºC, e conteúdo de água na madeira acima de 18% até algo em torno de 60%. Lembrando que, na natureza existe uma grande diversidade de fungos que dependendo das condições, se adaptam aos extremos". 

Explicou então que se a madeira quando cortada ou serrada, normalmente verde (significa com grande volume de água impregnando) for depositada em um rio, continuará com a água impregnada, desta forma impossibilitando a germinação e desenvolvimento de fungos apodrecedores, por consequência continuara intacta.

Apelo por punição maior para quem pega a madeira

Encontrar uma madeira de lei no rio ou na praia, não a torna propriedade de quem a encontrou. Ao passar por uma situação como essa, é preciso informar o achado aos órgãos ambientais competentes. 

"A Lei de Crimes Ambientais prevê que quem transporta madeira nativa sem a licença respectiva, Documento de Origem Florestal-(DOF), está sujeito a detenção de seis meses a um ano", segundo Victor Athayde Silva, advogado especialista em Direito Público. 

O engenheiro florestal Rander Loss Marinot defende que deveria haver uma punição maior para esse tipo de crime, de forma que iniba a prática. "A lei é de 1998. De lá para cá, esses recursos estão cada vez mais escassos, e a pena é a mesma de antes", argumentou. 

Ele explicou que o órgão a seracionado quando se encontra uma madeira de lei nativa varia, dependendo do lugar em que ela foi descoberta. 

Se ela foi encontrada na praia ou em um rio que corta mais de um estado, o órgão competente é o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Já se tiver sido descoberta em um rio que corta apenas o estado, é o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf). 

"A pessoa não pode por conta própria pegar essa madeira. Isso seria crime. Mas se não aparecer o proprietário, o indivíduo pode fazer o requerimento do transporte. Com a autorização devida, é possível fazer o transporte e beneficiamento", esclareceu. 

Ele explicou que seria possível o desenvolvimento de uma projeto para identificar e fazer a retirada dessas madeiras dos rios ou praias. Mas, lembrou que a partir do momento em que há uma tora submersa, o meio ambiente se adapta. 

Então, seria necessário esperar o momento adequado. 

"Quando o nível do rio baixa e fica parte da tora exposta, é interessante e viável a extração. Mas retirar aquelas que estão no fundo do leito é inviável, porque a fauna aquática já se adaptou e a utiliza como moradia e local de reprodução", frisou o engenheiro. 

A madeira, submersa, fica preservada. Mas quando exposta sofre ação da radiação, de insetos. "É uma madeira nobre que se perde, quando poderia ter um proveito melhor ", destacou o engenheiro florestal. 

Confira o clipping da matéria.

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